Reflexões

Padre, ainda Não Chegou o Momento!

Esta colocação está no livro do Pe. Léon Burdin: “Morrer, uma obra de arte”.

Sou diácono permanente da Arquidiocese de São Paulo. Trabalho na Paróquia Nossa Senhora de Lourdes do Planalto Paulista e no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo onde sou um dos capelães.

Muitas vezes escuto: “Diácono, ainda não é a hora para o senhor visitar”.
Algumas vezes escuto isso de católicos praticantes, mas acham que “Chamar o padre” deve ser uma das últimas coisas.

Certa vez estava visitando uma senhora em seu leito. Batemos bom papo, falamos de sua família, suas dificuldades, alegrias, rezamos e, quando estava abençoando-a seu esposo chegou. Assim que saí do quarto ele perguntou-me: - “Quem autorizou o senhor vir rezar pela minha esposa?” Falei: -“Ela me pediu e acrescentei: Porque essa pergunta?” Ele disse: -“Porque ainda não é o momento de chamar o padre”. Falei: - “Meu irmão, esta é a quinta vez que visito sua esposa”. Continuei: - “Estava visitando uma paciente ao lado, quando ela falou-me: -“ O senhor pode vir visitar-me também?” E assim meu irmão, incluí o nome de sua esposa entre as pessoas que continuarei visitando. Ela já foi transferida de quarto e procurei visitá-la sempre. Continuei: -“ bata um papo com ela e veja se devo continuar visitando-a”. Quando retornei dois dias depois, ele falou:- “Diácono, por favor, continue visitando a minha esposa e pode falar de Deus e até mesmo da morte, porque é isso que ela quer”. Mais algumas vezes consegui visitar essa irmã, até que ela partiu para a casa do Pai, uns dias depois.

É triste, mas muitas vezes católicos deixam para chamar o padre quando nada mais ele pode fazer.

Querido leitor, o que você acha de entregar uma cópia destas colocações para o seu pároco, para os padres e diáconos que você conhece?

O meu objetivo é que cada Ministro da Palavra, seja ele ordenado ou não, ajude cada família, cada doente, a entender que o sacerdote, o diácono, o agente de Pastoral da Saúde deve visitar o doente sempre, mas principalmente, quando ele não estiver bem.

Nós devemos: “....ajudar os fiéis a conhecerem melhor sua fé, para melhor celebrá-la e testemunhá-la” e “ Por ser um dom precioso de Deus, a fé nos foi dada como presente no dia em que recebemos o Batismo. É preciso então, conhecer e aprofundar esse dom que Deus nos concedeu. Quanto mais o conhecermos, tanto mais por Ele nos encantaremos com o desejo sempre mais profundo de vivê-lo”. (CNBB – Sou Católico – Vivo minha Fé).

Nós, agentes da Pastoral da Saúde, devemos sempre estar cientes de que: “O ser humano é chamado a cuidar de si, dos outros e do mundo, não só por causa de si, não só para sobreviver, mas, para viver, porque viver, para si e para os outros, é muito mais do que apenas existir. Mas, para isso, é preciso saber ouvir o clamor da vida e se deixar afetar por ela”. (Maria Inês de Castro Millen – Tema: Espiritualidade e comportamento em Saúde – Livro: Teologia e Saúde)

Devemos ajudar o paciente, seus familiares e profissionais a ter fé, a conhecer a sua fé. “ A oração no Monte das Oliveiras é uma prova que a pessoa pode fraquejar diante da morte e não é condenada por Deus. A pessoa pode encontrar forças na fé para enfrentar o momento mais dramático e absurdo da existência humana”. (Pe. Alexandre Andrade Martins).

Sinto com tristeza ,no meu dia a dia, que a maioria dos familiares só nos chama para visitar seus doentes quando ele está em seus últimos instantes. Pe. Léon Burdin disse: “...terrível irresponsabilidade a das famílias que chama o padre, excessivamente tarde, na última hora quando o agonizante já entrou no último coma e ela só pode abençoar um cérebro apagado”.

Irmãos queridos, vamos evangelizar mostrando em nossas homilias que o sacerdote, o diácono, o agente de Pastoral deve ser chamado no início da doença, para que ele possa acompanhar em seus momentos mais difíceis, ajudando a manter fortificada a chama de sua fé.

Na Carta Encíclica “Lumen Fidei”, o Papa Francisco no item 37 nos orienta: “Quem se abriu ao amor de Deus, acolheu a sua voz e recebeu a sua luz, não pode guardar este dom para si mesmo”.

Nesse mesmo documento no item 39 encontramos: “Quem recebe a fé descobre que os espaços do próprio “eu” se alargam, gerando-se nele novas relações que enriquecem a vida”.

Evangelizando sempre,

Diácono Vicente de Paulo Nogueira.


Ensinar a Doar é Educar.

Éramos 13 filhos, contando os vivos e os três que Deus tinha chamado ainda bem pequeninos. Nossos pais nos criaram com muita alegria, amor, paz, disposição, apesar das dificuldades financeiras. Todos nós fizemos obrigatoriamente até a 4ª série. Os três mais velhos, assim permaneceram, pois em nossa cidade não tinha o “Ginásio”. Os demais fizeram pelo menos o colegial.

Nossos pais insistiam que todos nós participássemos de cursos que eram dados periodicamente, para melhorar o conhecimento. Estudávamos em um período e trabalhávamos no outro, desde os sete anos de idade. As meninas faziam tricô para uma firma e nós homens, após a limpeza da casa, preparávamos os cartuchos (somente os cartuchos, sem a pólvora) para as famosas bombinhas da “Fábrica de Fogos Caramuru”.

Quando era dia de fazer postes de concreto (meu pai era responsável pela “Central Telefônica” de nossa cidade), todos nós, papai, mamãe e filhos, cada um com sua latinha, enchia a forma. Eram dois postes cada vez.

No final da tarde, diariamente todos estávamos livres para brincar no grande quintal de nossa casa. Nossos amigos vinham com os seus brinquedos comprados nas lojas, mas queriam brincar com os nossos, feitos nas poucas horas de folga do papai, ou pelo nosso irmão mais velho o Benedito. Eram carrinhos feitos com uma pequena madeira com rodas de carretéis de linha. Apostávamos corrida, andando sobre duas latas de leite ninho, com cordinhas que passavam entre os dedos do pé e controlávamos com as mãos. Nunca ganhamos um “presente de loja”, mas, fomos criados com muito amor e vivemos com alegria e paz.

Assim vivemos felizes, sem traumas por ter iniciado tão cedo o nosso trabalho. Uma outra coisa que aprendemos bem cedo, foi doar para Deus e doar para os irmãos mais necessitados. Nós sabíamos que o salário do papai não era suficiente e então, aprendemos que todo valor recebido através do trabalho ou de presente de padrinhos, deveria ser entregue para o papai, em benefício de todos.

Foi aí, diante de cada valor recebido que o papai nos explicou que sempre, uma parte deve ser doada como dízimo. As explicações foram tão claras , que nós fazíamos isso com alegria e ficávamos felizes de entregar aquele valor durante a coleta na missa. Algumas vezes eu pensei em tirar daquele valor, o suficiente para um sorvete, mas nunca fiz isso.

Nossos pais sempre diziam: “Deus ama a todos, mesmo os pecadores, mas, certamente atenderá com mais rapidez, os pedidos dos filhos que sabem agradecer pela vida recebida, pela família, pela oportunidade de estudar, de trabalhar e de viver com alegria e muita paz.

Agradecer, agradecer, agradecer sempre, à Deus, através de nossas orações, e da entrega do nosso dízimo, e aos nossos irmãos, repartindo sempre com eles, principalmente, os nossos conhecimentos, para que eles tenham uma vida mais humana e feliz.

O tempo foi passando e nós sempre aprendendo mais sobre a beleza de pagarmos o dízimo mensalmente e de economizarmos ainda mais, para doarmos para os irmãos mais necessitados. O tempo vai nos ensinando que, quanto mais nós doamos, mais sentimos a beleza da vida.

Obrigado papai, obrigado mamãe por nos ter ensinado a beleza de doar.

Diácono Vicente de Paulo Nogueira.


Pedido aos jovens.

Caríssimo jovem, nos últimos dias, após desenvolver meu trabalho como Diácono Permanente no ICESP – Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, retornei para a casa pensando em nossos jovens. A minha pergunta é: Porque os jovens não visitam um amigo internado com câncer? Será por falta de tempo? Creio que não, pois nossos jovens sempre conseguem trabalhar, estudar e estar junto com os amigos. Esta é a minha preocupação, pois sempre visito jovens nos diversos institutos do Hospital das Clínicas e as colocações deles são sempre as mesmas: - Diácono, tenho tantos amigos e já estou aqui há tanto tempo sem nenhuma visita. Nos últimos dias, um jovem falou: “Estou aqui há mais de 40 dias e apenas dois amigos me telefonaram, mas ninguém veio me visitar. Fico aqui pensando em cada amigo, no que eles estão fazendo, fico lembrando os nossos encontros, dos momentos alegres e tristes vividos juntos”. Ele continuou: “Como eu gostaria de receber pelo menos um deles aqui, para ficar sabendo das novidades, das coisas boas e também das coisas ruins do nosso grupo”. Quando saí do quarto, falei com a enfermeira e pedi: Por favor, hoje à tarde a mãe do......... virá visitá-lo. Peça para ela telefonar a alguns amigos dele pedindo para, por favor, virem visitá-lo.

Caro jovem, pensando porque vocês não visitam o amigo doente cheguei à seguinte conclusão: Vocês não visitam porque não sabem o que dizer para o amigo enfermo. Ficam pensando: O que dizer para alguém com câncer em fase terminal? O que dizer para o amigo que passará a viver em cadeira de rodas?

Caro jovem, se um dos seus amigos estiver internado, vá correndo visitá-lo. Chegue lá com aquele abraço. Olhe para ele, sorria , cante , chore , reze com ele. Não se preocupe com o que falar, mas procure amá-lo da mesma forma como você o ama em seu grupo. Deixe que ele faça as perguntas. Ele vai falar da doença dele, das coisas que sonhou em fazer e que não sabe se poderá fazer. Por favor, organize seu grupo para que o nosso doente tenha sempre alguém para alegrá-lo, para dizer o que está acontecendo na comunidade de vocês. Tenha certeza, querido jovem, que um abraço bem fraterno vale muito mais do que palavras fabricadas. Não esqueça nunca de que esse pequeno gesto vai ajudá-lo muito, mesmo que você não diga uma única palavra. São de Bento XVI as seguintes colocações: “Na Igreja não pode haver nem esquecidos e nem desprezados”.

Caro jovem, você e os seus amigos poderão ajudar cada jovem de sua comunidade, que estiver internado. Se ele estiver triste, sua visita fará com que ele se alegre, mesmo sabendo da gravidade da sua doença. O Papa Francisco no dia 24/03/2013 – Domingo de Ramos nos disse: “Nunca sejam homens e mulheres tristes; um cristão não pode nunca sê-lo! Não vos deixem invadir pelo desânimo! A nossa alegria não nasce do fato de possuirmos muitas coisas, mas de termos encontrado a pessoa de Jesus, que está em meio de nós; nasce do saber que com Ele nunca estamos sozinhos, mesmo nos momentos difíceis, mesmo quando o caminho da vida é confrontado com problemas e obstáculos que parecem insuperáveis! E há tantos!”

Caro jovem, reflita um pouco sobre estas palavras, leve- as para seus companheiros e nunca deixe de visitar os jovens doentes de sua comunidade, estejam eles nos hospitais ou em suas residências. Eles necessitarão sempre do seu abraço amigo. Que o Bom Pai continue abençoando a todos.

Diácono Vicente de Paulo Nogueira.


Papa condena "cultura do disperdício" no Dia do Meio Ambiente.

O Papa Francisco condenou a "cultura do desperdício" por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado nesta quarta-feira, e convidou todos a combater o "desperdício de alimentos e melhorar sua distribuição no mundo".

"Deus confiou ao homem e à mulher o cultivo e o cuidado da terra, para que todos pudessem morar nela, mas o egoísmo e a cultura do desperdício levaram ao descarte das pessoas mais fracas e necessitadas. Mais ainda, em muitas partes do mundo, apesar da fome e da desnutrição existentes, muitos alimentos são desperdiçados", disse durante a audiência geral na praça de São Pedro.

"Os alimentos jogados no lixo são alimentos roubados da mesa do pobre, de quem tem fome. A ecologia humana e a ecologia ambiental são inseparáveis", afirmou.

O chefe da Igreja Católica, grande defensor dos pobres, advertiu que "vemos agora a crise no meio ambiente, mas a vemos, sobretudo, no homem. A pessoa humana está hoje em perigo!", afirmou.

"Na cultura do desperdício, se morrem homens e crianças não é notícia; se a bolsa cai é uma tragédia", comentou indignado.

"Acaba-se por descartar as pessoas. Deixa-se de respeitar a vida, sobretudo se é pobre ou incapacitada, ou se ainda não é útil, como a criança que vai nascer, ou se não serve mais, como o idoso", acrescentou.


Nós, católicos, e as mudanças religiosas no Brasil

Durante a 51ª Assembleia da CNBB, de 10 a 19 de abril, em Aparecida, foi feita uma análise do quadro religioso do Brasil, com base nos dados do Censo de 2010.


Conforme já foi noticiado, houve uma nova diminuição do número dos que se professam católicos, que seriam ainda cerca de 64% da população brasileira; houve quedas igualmente de adeptos das Igrejas Protestantes tradicionais ou históricas, como a Luterana, a Presbiteriana, a Congregacional e outras Igrejas Evangélicas de missão; mas também houve queda acentuada dos aderentes à Igreja Universal do Reino de Deus e de outros grupos pentecostais livres. Novos grupos “livres”, de inspiração neopentecostal, surgiram e conquistaram adeptos.

Essa mudança religiosa não deixa de nos questionar. Há explicações culturais, sociais e religiosas na base dessa mobilidade religiosa que assistimos no Brasil nas últimas décadas. Mas, não basta compreender o fenômeno: como católicos, não podemos ficar indiferentes. E como Arcebispo da Igreja, expresso minha viva dor e preocupação por todo o católico que abandona a sua fé e me pergunto sobre os motivos que estão na base da sua escolha. Evidentemente, partimos do pressuposto de que a liberdade religiosa e de consciência das pessoas deve ser respeitada.

Mas, quando isso nos envolve, devemos dar respostas adequadas. Os motivos do abandono da fé católica, no entanto, devem ser examinados por nós, levando-nos às decisões que nos cabem tomar, com o coração movido pela caridade pastoral, por amor às pessoas, respeito e amor à verdade. Não podemos cair no indiferentismo religioso, em que uma coisa vale a outra e a verdade da Igreja fica relativizada pelo irenismo ou até pelo comodismo.

A causa do abandono da fé católica pode ser o conhecimento insuficiente ou apenas superficial da fé e da própria Igreja Católica. Muitas pessoas nunca foram verdadeiramente evangelizadas, nem tiveram a oportunidade de fazer uma experiência genuína e gratificante da fé em Deus na nossa Igreja. Não se ama o que não se conhece. E, não havendo raízes profundas nem identificação pessoal sólida com a fé e a Igreja Católica, o abandono acontece com facilidade.

O que devemos fazer nesses casos? Certamente, é preciso evangelizar mais e melhor, dando aos fiéis a oportunidade de conhecerem melhor a Deus e a Igreja, e de fazerem a experiência gratificante e profunda da fé. Devemos propor a verdade integral do Evangelho, sem poupar esforços para convidar as pessoas a fazerem um caminho de crescimento e amadurecimento na fé.

Acontece também que as pessoas abandonam a fé católica e a Igreja porque ficam decepcionadas com o nosso atendimento, nem sempre acolhedor. Isso nos deve levar, evidentemente, a rever nossos modos de tratar as pessoas. Ninguém espera ser tratado mal, ainda mais por quem representa a Igreja e fala em nome de Deus. E isso vale para nossos atos oficiais, como as celebrações, mas também para as relações pessoais dos católicos.

Entre as causas do abandono da fé e da Igreja Católica também está a discordância com a nossa doutrina moral ou mesmo com artigos da nossa fé. Nesse caso, por certo, não devemos renunciar à nossa fé, nem ocultar as exigências morais que decorrem do Evangelho. Mas, devemos cuidar de não transformar a fé em moralismo superficial, nem deixar de propor o encontro vital com Deus por meio de Jesus Cristo, antes de tratar das exigências morais do Evangelho. O resto será obra da graça de Deus, que conta com o diálogo paciente e respeitoso, o testemunho pessoal de vida cristã e o desejo sincero de ganhar irmãos para Cristo, para que tenham, por ele, a vida verdadeira.

Há também o fato da pregação contrária à Igreja Católica e sua doutrina, que leva muitos irmãos ao engano, ao abandono da fé e ao desprezo da Igreja. Nesse caso, cabe-nos defender as ovelhas do nosso rebanho e vigiar, mostrando-lhes a verdade e esclarecendo os aspectos em que sua fé e seu amor à Igreja são abalados.

Publicado em O SÃO PAULO, ed. de 16.04.2013


Oração pela Paz em São Paulo.